terça-feira, 23 de setembro de 2008

A divina natureza do reino das palavras



Fazer poema é fazer silêncio
dentro do peito,
deixar calar qualquer emoção
e comer insetos.

Fazer poema nunca foi fazer
humana tragédia,
lembrar de amores atemporais
e doer-se de dó.

É preciso rebaixa-se ao nível
da terra e só,
e no veio que vier a chuva
molha-te inteiro.

Lambuza-te da lama de onde vens
e faz teu melhor poema,
esquece as rimas
e as regras que te fazem
além de ser poeta,
ser capitalista ou comunista.

Colhe da terra as cores
de tudo o que nela nasce
e come todos os gostos
e sente dela o odor
não só das flores, mas também
dos adubos que enojam.

Aí encontrarás teu melhor poema
de inspiração surda:
no reino onde a natureza
fez o homem, também fez as palavras.

O verbo no início,
depois a carne, que
se instalou entre Deus e os homens.


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