sexta-feira, 3 de junho de 2016

Tempo Diário





Chega um momento em que todos os caminhos
são sinuosos, todos os anjos são sem asas
e os ossos não se levantam ou se aquecem.

Com tempo os pulmões se esquecem de fazer
o diário trabalho de levantar o corpo
para que as mãos levantem o copo e a vida seja brindada,
para que se abram os olhos e o dia seja brilhante,
para que se grite ao longe e todos ouçam... ao longe...

Mas longe é lugar que se apequenou
e agora é onde o sussurro se instala:
na garganta que ficou rouca,
nas marcas que sobraram roxas e ríspidas.

Longe é um lugar onde a voz já não chega.
longe é um lugar onde o ar já não refresca.
longe é o lugar onde o tempo diário é um instante
Longe é o lugar onde esse momento morre... 

De ser longe, tudo é pesado e transforma
em passado toda a voz que ousou fundir
sangue e oxigênio, sangue e arte, sangue e sorte.

De ser longe nenhum sentimento ficou perto
do batente coração e do ardente amor
- porque amor já não se sente -
porque persiste um vazio no caminho,
um se perder que não há volta
um sem querer que se faz e solta
a vida que antes se entranhava e dava força.

De ser longe, tudo perdeu seu lugar;
de ser longe nada pode ser substituído;
de ser longe, nenhum órgão encontrou um corpo;
de ser longe, nenhum transplante deu vida a quem ficou...

Assim longe, os pulmões não mais abraçam o coração...

E entre os anjos caídos, sem caminho entre céu e solo,
o que não há mais é força na voz, esqueceram-se de vez
de como é a vida no vigor do vento,
como é a vida no amarelo do girassol... a vida
batendo em um coração sem arritmia,
sem pressão nas veias abertas de um homem na América Latina.

As artérias acabaram-se e abriram-se abscessos,
aos gritos criaram-se tumores e o fim de tudo
foi um tambor que nada anunciou porque
os braços se aquietaram cheios de carência e dor.
.
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